
Depois de morar um ano em Mazagão, fui morar em Macapá. Fiquei por lá por dois anos. Trabalhava num Centro para meninos em situação de risco pessoal. Chegava as 8h e preparava o café dos meninos que iam chegando. Lá tomavam banho, café, um bate papo e íamos para atividade do dia, que variava entre futebol, histórias, fazer e soltar pipas, etc. Na hora do almoço, era o momento da descontração, tempo de estar com eles, como família. Muitas noites passei nas emergencias, nos hospitais, porque alguns deles haviam sido baleados ou "furados" com faca, como diziam.
Certo dia, chega um dos garotos, ele tinha nove anos, era um menino com brilho no olhar, daquelas crianças que nos apaixonam. Ele chegou, tomou café, e disse: "Hoje não to afim de ficar aqui, vou para rua." Tentei fazer com que ficasse, mas não adiantou ele estava decido passar o dia na rua. A rua que significa o encontro com o roubo, na hora da fome; com a cola, com a violência. Ele se foi. Perto do almoço volta. Sua expressão era dura. Não encontrava nele a criança que havia saído pela manhã. Perguntei o que aconteceu? Ele com olhos tristes respondeu: "É deveria ter ficado por aqui. Agora não tenho mais jeito." Sem entender o que ele falava perguntei novamente, o que aconteceu? Ele responde: "Estava cheirando cola, um homem me chamou e disse que me daria comida. Me levou num lugar chique, e mostrou tudo que me daria se ficasse com ele. Foi muito feio. Mas eu fiz o que ele quiz. E agora me sinto muito mal. Machucado. Meu corpo dói." As lágrimas que escorriam dos meus olhos naquele momento eram de revolta, de tristeza por mais uma infância roubada. Então ele me disse: " Não vou vir mais aqui. Agora sou um homem e tenho que me comportar como tal. Não sei o que a vida tem reservado para mim, mas vou atrás, doa a quem doer." Disse a ele que ficasse, que poderia ficar uns dias na minha casa ou em outro lugar que ele preferisse. De nada adiantou. Ele partiu. Procurei pelas ruas, pelos lugares que sabia costumava freqüêntar. Nenhuma notícia. Algumas semanas depois ele morreu. Em seu corpo pequeno as marcas da violência sexual. E talvez este tenha sido apenas um exemplo, de tantos outros.
Os dois anos que morei em Macapá, convivi com estes meninos, considerados pela sociedade como marginais. Para mim, eram pessoas, que só queriam ter uma vida cotidiana, alguém que de fato os exengarsse como gente.
Muito tem sido feito para mudar a realidade. Mas ainda há muito para fazer. Quem sabe onde estão hoje os José, os Joaquins, os Raimundos, que por lá passaram. A única certeza que tenho é que o amor semeado sempre da seus frutos.
Como é a realidade da prostituição infantil em sua cidade? Conte sua experiência.
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